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Querido sejas quem fores, 
Queria pedir-te para não te deixares ir abaixo porque não estás a fazer o que é suposto pessoas da tua idade fazerem.
É pedido que saibas o que fazer com a tua vida porque já tens idade suficiente para isso (mas não tens idade suficiente para outras coisas, lembra-te disso). É pedido que pares de sonhar com essas tuas fantasias utópicas e que comeces a ter os pés bem assentes na terra porque não são os sonhos que dão dinheiro. É pedido estudes muito, mesmo que isso te crie noite mal dormidas, stress, ansiedade, noites a chorar por te sentires inútil porque nem aquilo que é suposto fazeres consegues fazer. É pedido que entendas o que te ensinem sem questionares e sem encontrares outra forma de solucionar o mesmo problema porque não há cá ideias diferentes. É pedido que tenhas uma opinião formado sobre um assunto mas nunca a podes dar ou, se a dás, nunca poderá ir contra a opinião de uma pessoa mais velha que tu. É pedido que saibas já como fazer um trabalho laboral corretamente porque já devias nascer ensinado, obviamente. É pedido que nunca cometas erros mas é preciso saberes tudo sobre a vida porque é claro que há um manual sobre a vida escrito por uma pessoa que nunca cometeu erros (ela simplesmente aprendeu a viver por uma iluminação de uma figura desconhecida). É pedido que estudes por 12 anos mais licenciatura, mestrado e doutoramento para que possas casar, ter filhos e morrer - outra coisa além disto é totalmente impensável e não serás bem-sucedido. É pedido que sejas médico, advogado ou juiz porque todas as outras profissões estão ocupadas e são de nível baixo. É pedido que tenhas sempre um pensamento feliz porque tu não tens preocupações, não tens idade para isso (além de ter boas notas, de ter relações interpessoais, de te descobrires, de saber lidar com o falhanço, desilusão, rejeição e a todos os sentimentos e emoções negativas que te podem levar a sérios problemas). É pedido que sejas de uma determinada maneira mesmo que não te identifiques com essa maneira de estar (não és tu que decides, lembra-te). 
Peço-te, querida geração e qualquer outra pessoa, não pares de seguir aquilo que realmente te faz feliz por causa dos caprichos de outro ser humano - no final do dia, a vida é tua, não é o outro ser humano que a vai viver por ti. Espero que tenhas a coragem de por o pé firme no chão sim, mas para fazer frente aos obstáculos que te irão aparecer porque, acredita, ainda nem encontraste metade deles. Por fim, já agora, não te esqueças de acreditar - acredita em ti, acredita na tua mente e no teu coração, acredita no teu futuro, acredita nos teus sonhos e decisões. 
Com amor, 
Alguém que está no teu lugar.
NOTA: uso do calão.
Como dizer isto sem parecer rude ou fria: A automutilação e doenças mentais são fodidas. A ansiedade, ou a depressão, ou automutilação não vão trazer felicidade, muito pelo contrário. As pessoas e, muitas das vezes, livros e filmes, dão esta ideia de que a menina com a cabeça confusa e que é tímida e tem depressão e se corta vai arranjar um rapaz e vão ser felizes para sempre. Não. Digo por experiência própria quando isso está longe de estar correto. Sim, pode aparecer alguém que vos ame e que vocês amam de volta, no entanto, estes estados mentais vão foder tudo. Vão trazer medos, desconfianças, discussões, ataques de pânico, vão corroer o que a relação tem. Isto pode acontecer. Por muito que vocês amem ou alguém vos ame, esta é a realidade. Ninguém vai ser a vossa âncora. Aliás, ninguém, além de vocês mesmos, pode ser a vossa âncora. Vocês não podem depositar a vossa felicidade e o vosso bem-estar nas costas de alguém porque, caso essa pessoa vá embora, vocês vão voltar à mesma instabilidade de antes. Sei que me vão dizer que é muito fácil falar e que não sei o que digo. No entanto, eu sei perfeitamente o que digo. Tive de ser eu a puxar-me sozinha para cima. Sim, tenho amigos, na altura também tinha, mas tive de querer realmente melhorar para conseguir mais. Não estou perfeitamente bem ainda, longe disso. Para ser sincera, às vezes ainda penso que estou pior que antes. Porém, a ajuda tem de vir de dentro de vocês porque não vai ser amigos, psicólogos, família que vai ajudar porque vocês não vão aceitar ajuda a 100% se não estiverem determinados. E não importa o quão fodido é arranjar a vontade própria de se levantarem: se vocês conseguiram aguentar até hoje, a sobreviver dia após dia (ainda que estando uma merda), irão conseguir arranjar a força um dia, eu sei que sim. Apenas aguentem mais um pouco, eu acredito em vocês.
A minha independência sempre foi algo que prezava muito. Era algo que me define porque sempre apreciei não depender de ninguém para avançar. Aprendi a língua inglesa sozinha; aprendi HTLM e CSS sozinha; aprendi a mexer no computador sozinha; aprendi a pesquisar as minhas perguntas sem precisar de ninguém. Talvez porque a vida me obrigou a depender de mais ninguém além de mim, mas é algo que sempre gostei. 
A mais pura das ironias é que, em certa parte, perdi a minha independência.  A liberdade que tinha de controlar os meus sentimentos e estados de espírito evaporou-se. Acabaste por me tornar viciada no teu bem-estar para conseguir ter o meu. A tua felicidade deixa-me feliz, se estiveres triste assim ficarei, o teu sorriso provoca o meu e isto soa tão patético e cliché e meio que me revolta por me deixar influenciar pela tua alma. Reviro os olhos a mim própria por deixar que um forasteiro roube o meu equilíbrio.  Dá-me vontade de te bater por me deixares vulnerável com o teu olhar e palavras. No entanto, dá-me vontade de te beijar por aceitares a minha sensibilidade e medos, por afagares tanto o bem como o mau. E, apesar de assustada, estou estranhamente confortável com o facto de saberes quem sou, os erros que cometi, o quão chata e carente consigo ser, o quão eléctrica fico quando estou com sono ou a minha falta de habilidade de dançar. Estou dependente da maneira não-independente em que me transformaste.
Este será o ano em que farei vinte anos e aqui estou eu, a deambular entre almas perdidas e escondidas que procuram encontrarem-se e mostrarem-se mas que não há coragem para tal. Sinto-me inerte mesmo continuando, inapta de descobrir aquilo que me parece fazer falta. Não sei como manter-me coerente neste mundo de inconscientes e desconhecedores humanos que preferem praticar a maldade e serem impiedosos com quem algo de diferente tem. Perdi algo e não sei o quê. O meu espelho parece fragmentado, não reflectindo com precisão o que sinto. A desordem instalou-se no meu ser, deixando-me desorientada, sem saber que rumo tomar. Até agora apenas tinhas uma escolha a fazer e, de repente, com tantas hipóteses que podem definir o meu futuro, estou presa entre a racionalidade e a irracionalidade, entre o que é certo e o menos certo. De certa forma, até o menos certo se torna correto, dependendo do ponto de vista. Tenho de seguir a minha intuição mas ela não clarifica o que é necessário fazer. Tenho de fazer o que me parece bem mas nada parece bem suficiente porque me sinto num impasse mental e sentimental. O que me vai na alma está turvo e sinto que limpar a sujidade de nada iria resultar. Há uma voz, uma força desconhecida que me diz para continuar mesmo que não saiba o que fazer mas de que adianta se sinto que estou a perder tempo valioso? Inspiro e expiro, tento concentrar-me no que o meu espírito diz mas há demasiado alvoroço e atividade para ouvir apenas uma única coisa. Após este tempo todo e a pensar que iria saber o que fazer quando fosse mais crescida e estou mais perdida e exposta a todos os níveis porque a minha perspetiva alargou. Honestamente, nunca pensei chegar aos dezoito anos e ultrapassei essa meta. Percebi que, afinal, consigo coisas que nunca pensei conseguir e, de algum modo, isso assustou-me e abriu-me a novas experiências emocionalmente esgotantes, de uma maneira boa e má. Quando antes pensava que tudo ia dar errado e não me importava, agora tenho uma pequena esperança que me diz que talvez as coisas não dêem errado. Ainda assim, o facto de me deixar iludir e acabar por dar tudo para o torto deixa-me instável porque agora tenho algo a perder. Não há como me perder se nunca me encontrei realmente, mas perderia o pouco que me encontrei.

Perdida No (Des)Conhecido

by on janeiro 15, 2017
Este será o ano em que farei vinte anos e aqui estou eu, a deambular entre almas perdidas e escondidas que procuram encontrarem-se e mostra...